Henri Leroux
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Quando um concerto se tornou o início de um regresso

O bilhete explicava a primeira viagem. Não explicava a seguinte.

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A razão da viagem era clara.

Havia um concerto, uma ópera, uma atuação num festival ou um espetáculo que não podia ser visto em casa. Escolheu-se uma data, reservou-se um bilhete e organizou-se o resto da viagem para chegar a tempo. Podia haver uma noite na cidade, talvez duas.

Muitas vezes, isso basta.

Um espetáculo pode ser toda a razão de uma viagem. O hotel só precisa de ser prático. O restaurante só precisa de ficar perto. A cidade vive-se em fragmentos: o caminho desde a estação, a ida até ao local, as ruas depois dos aplausos.

Mas uma primeira visita curta pode deixar algo por terminar.

A cidade fora da sala

Havia um bairro visto da janela de um táxi. Um museu sem lugar no programa. Um mercado, um rio, uma rua ou um edifício que sugeria haver mais a que regressar do que o evento original.

O concerto tinha criado uma forma invulgar de primeiro encontro. A pessoa não tinha chegado para compreender a cidade, mas para estar num lugar, a uma hora, por uma razão definida.

Essa limitação tornou os outros vislumbres mais evidentes. A cidade não precisava de competir com o espetáculo. Oferecia algo mais discreto: uma segunda possibilidade para a viagem.

Regressar sem o bilhete

A visita seguinte foi diferente.

Já não havia uma sala a que chegar a determinada hora. O hotel podia ser escolhido pelo bairro, e não pelo percurso de volta depois do espetáculo. Havia tempo para um almoço demorado, um museu ou uma tarde sem plano.

A pessoa regressou não porque a primeira viagem tivesse mostrado pouco, mas porque tinha mostrado o suficiente para que outra viagem valesse a pena.

Alguns destinos são escolhidos primeiro e depois preenchidos por acontecimentos. Outros revelam-se por uma noite, um bilhete e uma razão para viajar. O espetáculo termina. A cidade fica.

Um bilhete pode ser a razão da primeira viagem. Não tem de ser a última.

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